A Bolha das 3 Dimensões

bolha3dOlá pessoal, depois de vários meses sem tempo para escrever, volto a postar no blog.

Desta vez trago para vocês um tema curioso, que me desperta interesse já há bastante tempo. Como podem observar pelo título, um tanto redundante, o assunto deste artigo trata de um “fenômeno” que considero ter ocorrido durante a quinta geração de consoles, quando empresas migravam seus jogos 2D para os “maravilhosos” jogos em 3D !?. Notaram o tom sarcástico? Pois é, garanto que não se trata de uma visão conservadora, nem tão pouco nostálgica, a questão é que acredito piamente que em vários momentos o 2D é mais atraente e interessante. Inclusive, na minha opinião, o 3D representou um declínio na qualidade gráfica dos jogos na década de 90 – Polêmico não?! Bom, deixem eu explicar…

A Migração

Para nós gamers, principalmente os que acompanharam a passagem da quarta para quinta geração de consoles, é notável que o 3D trouxe uma inovação visual e um aumento significativo da interatividade nos games. Os jogadores podiam explorar mais os cenários, observar objetos de outros ângulo ou até mesmo mover-se em todas as direções. Era sem dúvida um avanço tecnológico.

Um dos primeiros jogos a ganhar minha atenção neste sentido foi o saudoso Star Fox, lançado em 1993 para SNES pela própria Nintendo. Um game muito divertido e bem feito, que trazia uma linguagem visual única, adaptada perfeitamente aos gráficos 3D do chip Super FX. Eu achei maravilhoso, joguei em todos os níveis de dificuldade e, até onde consigo lembrar, achei os gráficos ótimos. Mas é aqui, neste contexto, que começo a explicar meu ponto de vista.

Observem a comparação abaixo, analisando apenas a questão gráfica.

StarFox (3D) vs The Magical Quest (2D)

StarFox (3D) vs The Magical Quest (2D)

Claramente é possível notar que  Star Fox é graficamente inferior ao game da Disney. Que apesar de ter sido lançado um ano antes, é muito mais bonito, elaborado e colorido. A questão aqui é, mesmo com esta aparente desvantagem visual em relação aos jogos da época, o game da Nintendo foi um sucesso, não houve sequer uma crítica da mídia especializada que tenha comentado sobre seus gráficos “quadrados”. Como isto é possível?

Anos mais tarde, em 1995, a Nanco lança um game 3D que revolucionaria os jogos de luta, muito superior a seu antecessor (Virtua Fighter), Tekken se torna o principal game para o novo console da Sony, o Playstation.  Além dos movimentos dos personagens surpreenderem pela realidade, a câmera era um grande diferencial, pois acompanhava os lutadores de vários ângulos, trazendo um replay instantâneo ao final do combate. As três dimensões se tornavam sinônimo de tecnologia de ponta, quem não seguisse esta tendência estaria desatualizado.

Vamos a mais uma comparação, novamente dois jogos de épocas semelhantes, ambos para Playstation.

Tekken (3D) vs Rayman (2D)

Tekken (3D) vs Rayman (2D)

Novamente poucos comentaram os gráficos de Tekken, mesmo quando comparado a Rayman, game 2D que apresentava belos cenários e ambientação cartunesca.

Seguindo a aparente tendência, o empolgado presidente da Sony, dá um depoimento polêmico onde afirma que somente jogos 3D seriam desenvolvidos para o console. Considero este infeliz comentário o início do que chamo de “A Bolha das 3 Dimensões”.

O Fenômeno

Acredito que muitos já ouviram falar no fenômeno conhecido como A Bolha da Internet, observado entre 1995 e 2001. Este tipo de acontecimento trata basicamente de uma tendência ou inovação tecnologica que chama a atenção do mercado e atrai a atenção de várias empresas, muitas delas despreparadas, partem para um caminho sem volta. Neste acontecimento várias delas apostaram na internet sem ao menos conhecer os reais benefícios da rede. O resultado? Muitas não suportaram e faliram em 2002 com o “rompimento” da bolha.

Considero que o mesmo tenha ocorrido em 1996, a Bolha das 3 Dimensões, e o discurso do presidente da gigante dos eletrônicos, convenceu empresas de games a desenvolver jogos nesta linha sem realmente conhecer os reais benefícios que esta tecnologia traria para o usuário final.

Algumas tentaram converter seus principais títulos para este paradigma. Um dos exemplos mais decepcionantes:

Street Fighter EX

Street Fighter EX

Além de gráficos inferiores, a versão 3D trazia uma péssima jogabilidade, ponto forte do seu antecessor.

O downgrade visual atingiu também as Cutscenes (animações entre as fases). Fato este bastante desmotivador, pois afinal, elas representam o momento onde o jogador recebe sua recompensa, o prêmio por ter vencido um difícil inimigo ou uma fase repleta de obstáculos. Na grande maioria das vezes, os jogos desta geração apresentavam animações desenvolvidas com o próprio Engine (motor) utilizado em seu desenvolvimento. Vamos relembrar um exemplo:

Spiderman para PSOne

CutScenes do jogo SpiderMan (2000) para Playstation

Temos que usar um pouco muita imaginação para enxergar Doutor Octopus, Venon e Gata Negra nas imagens acima. Você não tinha notado na época? Pois é, eu também não. Não há dúvida que títulos mais antigos do Aranha apresentavam um visual melhor.

Os Benefícios

Bom, se na qualidade gráfica os jogos não representavam um avanço, o que então teria mantido esta tecnologia até os dias de hoje? Seria algo difícil de enxergar externamente?

Longe dos olhos dos jogadores, a arquitetura 3D trouxe um grande benefício para as empresas desenvolvedoras. Elas ganharam automação e reaproveitamento de personagens, cenários e movimentos em um nível nunca imaginado antes da chegada dos gráficos poligonais. A arquitetura permitia, por exemplo, aproveitar não só o modelo como também todos os movimentos criados para um lutador em outro. Tudo isto ocorria em tempo real e não mais com movimentos previamente gerados, os famosos sprites.

Como um exemplo de facilidade de desenvolvimento, destaco um dos jogos mais jogados pelo público feminino, The Sims (2000). Nele há uma curiosidade que talvez tenha passado desapercebida pelos olhos de muitos gamers. Observem que este título não utiliza movimento de câmera, todo o jogo é baseado em uma única perspectiva, mas se analisarmos bem de perto, é possivel perceber que os personagens  foram desenvolvidos com modelos 3D.

Você deve estar se perguntando, porque utilizar a tecnologia, já que o jogador não pode usufruir de seus benefícios?

Bom, neste caso, por simples facilidade de desenvolvimento, os personagens e movimentos foram reaproveitados de um Sims para outro. Inclusive os famosos pacth’s de atualização poderiam facilmente trazer novos movimentos aos personagens, já que toda a movimentação era executada em tempo real.

The Sims (2.5D) vs Commandos (2D)

The Sims (2.5D) vs Commandos (2D)

Porém, se seguirmos comparando com outro grande sucesso da época, Commandos (1998), e voltarmos a pensar nos reais benefícios para o usuário final, especificamente o visual, podemos perceber que The Sims é um game graficamente mediano. Novamente um custo a se pagar pela tecnologia utilizada.

Conclusão

Com todas estas dúvidas, pontos de vista e curiosidades, o que podemos concluir? O 3D representou uma era negra para os videogames? Com certeza não, ao contrário do fenômeno relacionado a internet, este declínio gráfico e títulos mal projetados não levaram nenhuma empresa a falência, ou tão pouco o público a se desinteressar pelos games.

Os jogadores se adaptam com maior facilidade, ao contrário dos internautas, relevam de certa forma alguns fatores em troca de outros. Prova disto foi a inclusão do polêmico Now Loading, “brinde” da quinta geração, proporcionado pela mídia de disco compacto. As desvantagens foram aceitas por serem oriundas de uma tecnologia promissora, um novo paradigma, que por outro lado lhe proporcionaria vários outros benefícios, entre eles um aumento significativo nos movimentos dos personagens e na interatividade,  permitindo explorar mais profundamente os cenários.

Em resumo a aposta valeu a pena, alguns anos depois a tecnologia 3D demonstra seu real potencial gráfico. Técnicas como o CellShadding são capazes de gerar verdadeiros desenhos animados em tempo real, obras de arte digitais.

Street Fighter 4 - Zelda Wind Waker - Okami

Zelda Wind Waker – Street Fighter 4 – Okami

Porém, é fato que mesmo com o nível que a tecnologia 3D encontra-se hoje, é importante projetar e usar com moderação 😉

Ilustrações: Inara Cavichioli
Autor: Everton Vieira Ver todos os posts de
Sou Bacharel em Análise de Sistemas pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel) no ano de 1999. Minha paixão por games é de longa data. Porém, em 2003 tornei essa paixão uma profissão. Durante oito anos atuei como Game Designer e Arquiteto de Software em mais de 30 projetos de Serious Games (simuladores) para grandes empresas do país. Atualmente sou sócio-fundador da Izyplay Game Studio, onde exerço o cargo de Diretor de Criação. Além do envolvimento corporativo, também participei da organização da Pós Graduação em Arquitetura e Desenvolvimento de Jogos Digitais na FATEC SENAC Pelotas. Minha área de interesse e especialização é Game Design e Inteligência Artificial.

10 Comentários em "A Bolha das 3 Dimensões"

  1. Marcelo Tust 26/03/2009 at 00:49 - Reply

    Cara, achei muito legal teu post, esse assunto é bastante interessante. Acredito que as empresas não teriam chegado no produto de hoje em dia se não tivessem passado por essa fase “triste”. Os gráficos dos jogos da última geração de video games é realmente indiscutível. Mas lendo comecei a lembrar de alguns games 2D que tem gráficos invejáveis até nos tempos de hoje, como: Donkey Kong 3 para o super nintendo, Age Of Empires 2…
    Mas é claro lembrei também dos jogos 3D que chegavam a prejudicar a visão do jogador. Antes mesmo de ver a foto, me lembrei do Street Fighter EX do playstation one. Este era muito ruim, nada se aproveitava neste game hehehe..
    Lembrei também de alguns para o Mega Drive que tinham versões para o Arcade também, como, virtual fighter e um outro de fórmula 1 que não consigo lembrar o nome. Eram de Mega Drive esse jogo né? Agora não tenho certeza.
    Rolou até uma sessão nostalgia hehe.

    Muito legal!
    Abraço!

  2. Victor Prates 26/03/2009 at 01:00 - Reply

    Cara parabéns por este artigo, gostei muito mesmo.

  3. João Paulo 26/03/2009 at 01:58 - Reply

    É rapaz… eu qua praticamente fiquei afastado dos games desde o Super Nintendo, agora jogo “Shadow of the Colossus” com uma certa saudade do velho “Mario”! mas estou me adaptando!

    🙂

  4. kerberus 27/03/2009 at 11:35 - Reply

    Muito bom teu artigo Everton eu só adicionaria que existe um tipo de preconceito tecnológico, porque muitas veses os jogos 2d nem foram jogados e já dizesse que não é bom pelo simples fato de que é 2d, creio eu que que as pessoas olham o 2d como algo ultrapassado, como se fosse uma tecnologia muito inferior a 3d, que é de certa forma ridículo, existem jogos 2d que usaram muito mais tecnologia que alguns jogos em 3d e outra na minha opinião os jogos podem ser muito bons independentemente da tecnologia empregada, como podem ser muito ruins usando tecnologia de ponta depende muito da equipe que criou o jogo e principalmente do game designer, bom resumindo pra mim os jogos 2d são como um gênero, e um gênero muito bom de jogos, é isso então parabéns pelo artigo concordo plenamente com a tua visão.

  5. Fabio Tust 27/03/2009 at 14:57 - Reply

    Fala Everton! Ótimo texto. Foi uma abordagem interessante da história dos games. Interessante também para a “geração Playstation” que não pegou a era de outro dos 16bits saber que nem sempre as coisas foram como hoje. Os 3D que jogavamos eram mesmo protótipos do que temos hoje, eu lembro desse jofo de corrida 3D que o Marcelo citou, Virtua Racing da Sega. Era um jogo muito legal pela jogabilidade, mas com os gráficos poligonais 3D muito primitivos, sem texturas e parecia usar umas 8 cores heheheheh.
    Um dos piores efeitos colaterais da mudança do 2D pro 3D na minha opinião foi a destruição do Sonic. Um jogo tão bom em 2D foi aniquilado em todas as tentativas de continuações em 3D.
    Parabéns pelos textos do blog!

  6. Juliano Timm 29/03/2009 at 01:58 - Reply

    Opa, ótimo artigo. É interessante esta visão. Acredito que poucos usuários pararam para pensar nessa questão de qualidade gráfica entre 3D e 2D. Meu primo, pegou esta transição. Ele é fanático por Dragon Ball Z. Logo que ele comprou o play one foi atrás do cds de dragon ball. Para sua infelicidade nenhum deles o agradou. É engraçado que ele vinha na minha casa jogar o DBZ no meu NES. Até hoje foi uma grande decepção. Como lembrasse, o problema da bolha não afetou somente a questão gráfica, mas também a jogabilidade e outros importantes itens. Acredito que o grande problema foi o foco que as empresas deram a esta tecnologia e esqueceram outras questões importantes dos games. Até o play Two eu não gostava no geral de games 3D. Sempre os achava fáceis, bobos entre outras coisas. Por exemplo, qualquer jogo 3D de luta é muito estranho, os adversários um de frente para o outro com aquela câmera de lado. Fora que durante a luta fica aquele exagero de luzes e efeitos. A gente olha e pensa: puts, pra quê. Se percebe que houve quase nada ou nada de avanço no game. Até hoje acho mais divertido jogar mortal kombat no NES do que em outro console. Mesmo em jogos de qualidade, como o Tekken, sempre acho estranho e engraçado aqueles braços quadrados.. Claro que com o 3D, jogos como Resident Evil, Parasite Eve e outros, não seriam a mesma coisa.
    Acredito que a origem da declaração do presidente da sony, foi o fato de ser uma “evolução” que o usuário final literalmente veria. O que ele, acredito eu, considerava ser o sinônimo de qualidade de games para a época.
    Em resumo qualidade de um jogo não se avalia por sua quantidade de dimensões 😀

  7. beta 09/04/2009 at 14:13 - Reply

    Puxa, Everton, que belo artigo.
    Como boa acadêmica, eu gostaria de vê-lo também publicado em eventos e publicações da área.
    Sinto-me incapaz de debater o tema, porque não sou uma game-player, mas tendo a concordar contigo de que 3D não é sinônimo de qualidade, pelo menos nos jogos educacionais, que são uma parte do meu objeto de pesquisa e desenvolvimento.
    Espero poder continuar acompanhando tuas análises.
    Beta

    • Everton 16/04/2009 at 14:51 - Reply

      Olá Beta, que bom que gostastes do artigo!
      Também gostaria de vê-lo publicado em eventos da academia, conto com um apoio seu 🙂

  8. Júnior Campos 11/09/2009 at 15:57 - Reply

    Gostei do artigo. Acho que toda a evolução sofre quando entra no mercado. Como gosto muito de jogar futebol e corridas de carro, o 3D foi muito bom (sei que nesse momento desabei no conceito de quem realmente gosta de games bem elaborados…hehehe).
    Um ponto interessante a ser abordado – a corrida pela superação entre as empresas que fabricam games. Daqui a pouco, outra tecnologia vai estar superando os jogos mais evoluidos de hoje, e assim por diante. O negócio é aproveitar. Até hoje tenho um Atari, somente para jogar river raid, eu curto e daí…hehe.

    • Everton Baumgarten 11/09/2009 at 16:47 - Reply

      Olá Júnior,
      Hehe, não seja preconceituoso, no máximo você faz parte do grupo de jogadores BRASILEIROS, que são claramente apaixonados por Automóveis e Futebol. O problema é ficar apenas jogando estes, ai não pode, vai perder muito game legal e divertido ;).
      Outro ponto interessante a destacar nesta questão da relação 3D x 2D, seria a facilidade que um jogo feito em 3 dimensões “envelhece”. Por exemplo – você facilmente consegue pegar um SNES e jogar um Super Mario World, achando o game muito divertido. Porém, duvido conseguir fazer o mesmo com o primeiro Tom Raider do PSone. Já pararam para pensar nisto?

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