Crowd funding – alternativa de financiamento?

Nesta segunda-feira recebi email do Kickstarter avisando que um projeto com o qual eu contribuí, alcançou seu objetivo. O projeto é “A Luz da Escuridão” da Epifanica, que conseguiu levantar os R$37.000,00 desejados com a ajuda da comunidade.

Kickstarter é um site de crowd funding, conhecido por aqui como financiamento coletivo ou financiamento colaborativo, modalidade de levantamento de fundos que vem se destacando como alternativa para financiar projetos de jogos.

Crowd funding, que significa (a grosso modo) levantar fundos com a multidão, é uma forma de financiar um projeto já conhecida na área de cinema e música, de onde surgiu. Na área de jogos, no entanto, é recente. Aliás, os projetos de jogos chegam a ser difíceis de descobrir dentre tantos outros, de diferentes áreas, que existem nos sites especializados.

A idéia é simples: você abre um projeto em um site de crow funding e especifica quanto dinheiro precisa para realizar ele. Faz seu marketing e as pessoas contribuem com determinadas quantidades de dinheiro em troca de algum benefício, que pode ser desde wallpapers exclusivos até seu nome ou logotipo na abertura do jogo.

O projeto da Epifanica (saiba mais aqui) foi colocado no Kickstarter, que talvez seja o mais conhecido site de crowd funding. Mas existem vários outros, com diferentes focos e com diferentes metodologias.

Principais sites

Kickstarter hoje o líder do segmento, existe desde 2009 e desde lá já financiou mais de 80 projetos de jogos. O que ainda é pouco, se levarmos em conta que o total de projetos financiados é quase 100 x maior.

Cobra entre 8% a 10% como taxa de serviço e as pessoas podem contribuir via serviço de pagamento da Amazon.

IndieGoGo é mais antigo do que Kickstarter, tendo nascido em 2008, porém até 2010 só financiava projetos de filmes. Só 1 projeto de jogo foi financiado pelo serviço até agora.

Cobra 7% se o projeto atingir a meta, caso contrário cobra 12% e aceita doações com PayPal.

RocketHub recente, apareceu no início do ano passado com uma proposta um pouco diferente dos demais. Já financiou 12 projetos de jogos e também tem custo variável. Cobra 8% para projetos que atingem a meta e 12% para os que não atingem. Aceita apenas cartões de crédito.

Ulule – também criado em 2010 (porém em outubro), é o que busca oferecer os menores custos e a maior facilidade. Só financiou um total de 160 projetos até agora, dos quais 4 foram jogos.

Cobra 3% e aceita PayPal.

8-bit Fundingfinalmente um dedicado a jogos, é o mais novo, tendo surgido no início deste ano e ainda é apenas uma promessa. Financiou apenas 1 projeto no total.

Cobra 8% e aceita PayPal.

Modelos de financiamento

Existem hoje, basicamente, três modelos:

Tudo ou nada – você faz sua doação, as mas seu cartão de crédito não é cobrado ainda. Apenas se o projeto alcançar o valor desejado, todos doadores são cobrados e o projeto recebe a quantia. Ou seja, se o seu projeto almejava R$30.000,00 e fechou o último dia com R$29.999,00, nada de grana para você!

Este sistema possui a vantagem da credibilidade – as pessoas sabem que não estão dando dinheiro para projetos sem futuro. O argumento é o seguinte: imagine que você doa R$300,00 para um projeto que almeja R$30.000,00. Mas só você e outra pessoa doam. Resultado: o dono do projeto não consegue fazer nada com os R$600,00 que recebeu e você desperdiçou seu dinheiro em um projeto que não vingou.

Kickstarter e Ulule trabalham com esse modelo.

Fique com tudo – tudo que for doado é imediatamente descontado do doador e vai pra a conta do projeto. A maior vantagem é para o projeto, que ganha nem que seja alguns centavos.
O argumento aqui é que pode ser difícil levantar de uma vez os R$30.000,00 do projeto. Mesmo que você poste ele novamente mais tarde, novamente serão R$30.000,00 a serem levantados. Com o modelo de fique com tudo, se você levantar apenas R$10.000,00, fica com eles e depois pode postar novamente, desta vez com objetivo de R$20.000,00, que é mais fácil de atingir. Claro que fica a cargo do desenvolvedor guardar do dinheiro do primeiro financiamento para juntar com o segundo.

IndieGoGo e 8-bit Funding usam este modelo.

Tudo e mais – neste modelo, mais recente e criado pelo RocketHub, o projeto também fica com tudo que for levantado, mas ganha benefícios extras se atingir seu objetivo. Ele ganha acesso ao serviço Launchpad Opportunities, que visa encubar os projetos e oferecer uma divulgação maior. Além disso, se o projeto atingir a meta, as taxas saem pela metade (isso o IndieGoGo também faz).

Vale a pena?

Vale sim, mas sempre é importante fazer direito. A escolha do modelo é importante – por um lado pode parecer mais fácil conseguir alguma coisa no modelo “fique com tudo”, mas se seu projeto é bom e você está seguro do seu plano de marketing e relacionamento com os possíveis doadores, talvez a credibilidade do “tudo ou nada” seja a garantia do projeto financiado.

Nada é de graça, isto já sabemos. No caso do crowd funding, além da taxa do site, é preciso pensar na recompensa para os doadores – na realidade não são apenas doações, são investimentos no seu projeto, esperando obter algum retorno no final. A recompensa mais comum é uma cópia do jogo. Pela minha mísera doação de US$5,00 vou ganhar uma cópia do Luz da Escuridão. A maioria das doações foi de US$25,00, que dá direito ao jogo, receber um cartão postal com uma das ilustrações do mesmo, ter o nome nos créditos e ainda receber as fontes (tipos de letra) usadas no jogo.

Produzir conteúdo durante a campanha de levantamento de fundos também é importante: material como trailers, ilustrações conceituais e uma newsletter ou blog informando os avanços no desenvolvimento (se houverem).

Este último ponto leva a outra questão importante – tanto mais fácil é levantar fundos quanto mais pronto estiver o trabalho, principalmente se já tiver algo para mostrar. Ou seja, se for possível, o ideal é financiar do próprio bolso o início do desenvolvimento e depois usar o crowd funding para recuperar o investimento.

Outro ponto importante é aparecer de fato, seja em vídeo ou em um podcast, onde as pessoas possam conhecer pelo menos sua voz. As estatísticas dos sites mostram que conhecer os responsáveis por trás de um projeto é um motivador para as pessoas contribuírem.

Conclusão

Embora recém esteja sendo conhecido por aqui, o crowd funding é viável mesmo no Brasil, como mostra o projeto A Luz da Escuridão. É uma alternativa a ser considerada.
Os sites acima merecem ser estudados mais a fundo, porque estão em constante mudança e oferecem mais recursos do que pude comentar acima – principalmente recursos relacionados a exposição do projeto a empresas grandes da área. O Kickstarter, por exemplo, recentemente incluiu uma área destinada a curadores, ou seja, grandes nomes da área (como IGDA) mostrando quais são os projetos que mais lhe chamam a atenção, aumentando muito as chances destes conseguirem financiadores.

E lembre-se de aparecer e comunicar-se com seus financiadores. Não adianta abrir uma página para o projeto e esquecer dela, só voltando na data final para ver se alcançou a meta! É preciso que as pessoas percebam que o projeto está vivo.

Autor: Luiz Nörnberg Ver todos os posts de
Sou Bacharel em Ciência da Computação pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel), onde também atuei como professor. Desde a época da faculdade (mais de quinze anos atrás) a paixão por jogos tem sido importante no meu direcionamento profissional. Sou sócio-fundador do Izyplay Game Studio, onde exerço o cargo de Diretor de Tecnologia. Sempre tive grande foco em desenvolvimento em Java, embora tenha migrando para a tecnologia Adobe AIR em função de sua portabilidade. Ah, e é claro, dou meus palpites no game design.

11 Comentários em "Crowd funding – alternativa de financiamento?"

  1. Marcelo Martins 15/09/2011 at 10:48 - Reply

    Parabéns ao pessoal do projeto “Luz da escuridão” por essa conquista! Crowdfunding é viável, porém não é tão fácil alcançar os objetivos. Esse exemplo brasileiro mostra que é possível produzir jogos independentes de maneira sustentável. Que venham mais!

  2. Bruno Rafante 15/09/2011 at 14:16 - Reply

    Poxa eu to curtindo demais esse portal de vocês procurei tanto pela net por uma comunidade de desenvolvedores com moderadores sérios e com bastante conhecimento e compromisso, poxa vocês estão de parabéns. Porém eu gostaria de fazer uma sugestão. Porque vocês não implementam um fórum?
    Eu gostaria muito de participar mais as vezes criar tópicos perguntar responder, contribuir e adquirir contribuição, sou programador .NET e estou aprendendo a trabalhar com Unity3d. E o fórum poderia abranger não apenas os gameDevelopers como nós, mas talvez ter também algo seria um chamariz para o site: Uma sessão com uma enquete: Peça seu jogo! Onde pessoas interessadas em jogos fariam posts dizendo que tipo de jogo elas gostariam de ter e de acordo com a quantidade de pessoas querendo o mesmo tipo de jogo nós, gameDevelopers poderíamos entrar em contato com essas pessoas que são possíveis consumidores do nosso produto, e ter um entrosamento melhor, além do mais um espaço para os gameDevelopersIndependentes postarem links para projetos em andamento que condizem com algum dos pedidos dos gamePlayers. Essa parte do “Peça seu jogo” seria a propaganda maior do fórum. Afinal qual gamePlayer, não gostaria de ter contato direto com programadores e designers de jogos para poder tentar conseguir um jogo exatamente como ele queria? Eu sei porque eu também sou gamePlayer. E mais, muitos gamePlayers se surpreenderiam com a quantidade gamePlayers que compartilham do mesmo desejo que ele por um dterminado tipo de jogo que ele gostaria que existisse. Sobre esses grupos de pessoas é que nós gameDevelopers, faríamos nossas pesquisas.
    Obrigado, grande abraço.
    Mesmo na impossibilidade da criação do fórum gostaria que me respondessem.
    Boa sorte.

    • luiz.nornberg 16/09/2011 at 17:15 - Reply

      Olá Bruno! Agradecemos muito pelos elogios!

      Sobre o fórum, está em nossas metas a curto prazo, mas estamos pensando em algo diferente: ao invés de criar mais um fórum, estamos vendo possibilidades de realizar uma pareceria com fórum existente – ao invés de dividir, vamos somar, certo? Teríamos seções específicas do AoJ e também contribuiríamos nas outras seções. Aproveitaríamos a estrutura já existente e adicionaríamos conteúdo e, que sabe, algo como esta idéia que você deu, que é bem interessante. Esperamos ter novidades sobre isto ainda este ano.

      • Bruno Rafante 19/09/2011 at 11:56 - Reply

        Obrigado pela resposta luiz
        Estou aguardando ansioso. A iniciativa de vocês é realmente incrível e eu como desenvolvedor sempre procurei por uma comunidade de gameDevelopers (escrever com a primeira letra minúscula e as subsequentes – inícios de palavras – em Maiúscula é um vício de programador haha) que tivesse o que vocês estão se propondo a fazer. Continuem assim.
        Abraço

  3. Bárbara 29/10/2011 at 21:01 - Reply

    Boa noite!

    Chegando mais de um mês atrasada para as felicitações, mas em todo caso parabéns pelo sucesso do projeto!

    O que eu gostaria de saber a respeito desta questão do crowd funding é o seguinte: assumindo que o jogo esta sendo desenvolvido por uma empresa e que ao final do desenvolvimento ele será comercializado, há encargos tributários sobre os fundos recebidos para o desenvolvimento dele?
    Se ele fosse ser um jogo gratuito, haveriam encargos?
    Como se dá esta transferência de valores?

    Se os financiadores fossem o governo ou um banco haveriam apenas juros. Sob esta ótica, eu poderia dizer que os sites de crowd funding funcionam como estes financiadores (mas de financiamento não reembolsável), cobrando os encargos financeiros sobre o dinheiro que outras pessoas doaram?

    Bom, independentemente de onde o fundo veio, o produto é um software não parametrizável, certo? Portanto utilizar este recurso é permitido para empresas que possuam este CNAE (que é o que eu penso ser o correto para desenvolvedoras de jogos que não sejam advergames).
    Se o jogo for publicado na internet o CNAE tem de ser este abaixo?

    Subclasse 6319-4/00 PORTAIS, PROVEDORES DE CONTEÚDO E OUTROS SERVIÇOS DE INFORMAÇÃO NA INTERNET

    Agradeço toda a orientação e a disposição a responder as perguntas.
    Este site é uma iniciativa, até onde sei, bastante rara e generosa.

    • rafael.rodrigues 31/10/2011 at 11:16 - Reply

      Oi Bárbara,

      as primeiras perguntas, vou deixar para meu colega e autor do post responder, o Luiz.

      Sobre a CNAE, neste caso nos enquadramos na subclasse 6203-1 DESENVOLVIMENTO E LICENCIAMENTO DE PROGRAMAS DE COMPUTADOR NÃO-CUSTOMIZÁVEIS. Parece estranho, mas é esta classificação. Temos que levar em consideração que nosso produto é um software. Aonde vamos hospedar e quem vai hospedar é que deve ter a classificação que mencionaste.

      Até breve…

    • luiz.nornberg 31/10/2011 at 18:43 - Reply

      Olá Bárbara. Obrigado pela parabenização!
      Sobre a questão dos encargos, não sei lhe responder e, infelizmente, não há uma resposta única hoje no Brasil. Quem aderiu ao crowd funding fez isso sem clara idéia destas questões, na base do “vamos ver o que vai dar”. Nossa legislação é antiga (que novidade) e tem dificuldades para enquadrar o sistema em doações ou vendas. No caso de doações, você precisaria declarar o que foi doado no IR – e se foi para projeto cultural, poderia ter restituição. Se for venda, a empresa que desenvolve o projeto precisaria emitir uma nota fiscal para você. Dizer que é doação não é tao simples, porque em geral você adquiri alguma coisa (nem que seja um wallpaper) ao contribuir com um projeto.
      Para ter uma idéia mais clara dessa confusão, veja este artigo e dê uma acompanhada no blog http://crowdfundingbr.com.br/.

      • Bárbara 05/11/2011 at 02:40 - Reply

        “Não há uma resposta única hoje no Brasil” era a resposta trágica e engraçada que eu temia…
        Era mais ou menos na linha do artigo que eu tinha pensado mesmo…
        Mas eu queria saber o que o cara que recebe a “doação” tem que fazer para não ser ilegal.
        Pelo menos, se for uma empresa pequena, dificilmente alguém surge para fiscalizá-la.

        • rafael.rodrigues 07/11/2011 at 13:54 - Reply

          Olá Bárbara,

          empresas “normais”, de tudo que recebem devem emitir nota e doações não são permitidas.
          Apenas ONGs e igrejas podem receber doações. E eles não pagam imposto porque o ato constitutivo de uma ONG ou igreja prevê isso e não porque é uma doação. 🙁

          Vou buscar outras informações e te aviso se algo for diferente. Até mais!

          • rafael.rodrigues 08/11/2011 at 14:53 -

            Olá Bárbara,

            investiguei mais a fundo este tópico e é isso mesmo. Nós, empresas “normais” e legais, temos que pagar imposto sobre “doações” recebidas. No mínimo pagamos IRPJ e CSLL que pode chegar até 15% e 9% respectivamente.

            Deduções somente nos seguintes casos:

            a) artes cênicas;
            b) livros de valor artístico, literário ou humanístico;
            c) música erudita ou instrumental;
            d) circulação de exposições de artes plásticas;
            e) doações de acervos para bibliotecas públicas e para museus.

            É isso… 😉

          • Bárbara 24/11/2011 at 00:43 -

            Muito obrigada, Rafael!

            Quer dizer que, desde que nos diponhamos (a fazer tudo conforme a legalidade e)a pagar a fatia do governo, podemos trabalhar com o crowd funding.
            É bom saber das alternativas.

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